1.7.07

    hiperverso_01

    Quem ainda ousa discordar
    da mor-relevância do fogão
    na cozinha? Pois se o exaustor
    é cria sua, e o microondas
    é cópia sua, e a torradeira é parte
    dele... e assim e sempre.
    Tremendo sob coberta empoeirada,
    a batedeira e o liquidificador
    ficam cada qual no seu canto do armário,
    um troféu, e outro de dia das mães. E, vida habitualmente monástica,
    se doem escaras.
    Depois de baldada contenda,
    a geladeira finalmente calou-se e hiberna,
    em paz, sua função a de ser um armário afrescalhado.

    Pois o fogão dorme a maior parte do dia,
    sua pele nua, seu corpo esguio e agudo
    s ângulos. Não se reúne às quartas feiras
    para discutir a companhia elétrica.
    De seu altar, óculos escuros, exige
    oferendas, suas pílulas prateadas,
    peças exclusivas na casa, bagulho de patrão.
    De seu torpor ainda vigílio, nas horas acasuais,
    diz seu canto grave a voz morna
    cintilando cada azulejo.

    Venha conosco compor louvação libertina!

    Do sono dos dias, a tonteira das voltas,
    a cabeça tão cheia de palavras e imagens de palavras,
    do corpo de terra a pele tão cheia de asfalto e pedestre,
    e essa vontade de
    árvore. A sobriedade é impraticável,
    quem precisa de tanta vida, eu desenhei em giz
    cera sobre meus óculos. Procuro travesseiro,
    porque a noite já efloresce das bocas-de-lobo,
    a casa vazia, a mãe de férias, seu retrado beijando
    a parede na estante de tv. Quase esquecer culpa flutuar
    em direção ao timbre aquiescedor do fogão e lá deitar
    meu caos e separar fio a fio e organizar a fronha
    e repousar em seu ventre.

    Voltar.
    A antes da maçã da cobra, o umbigo é uma invenção inútil.

    Por ter corredor tão longo, agradeçam
    quem não queria o fedor e provável estouro
    e então impostergável telefonema ou mesmo
    carta ou mensagem via aparelho de fax
    à seguradora e tanto papel pra tão pouca
    árvore.
    Pois em ato gentil àqueles sobre quem cairia a
    lona do fracasso e aos jornais populares locais,
    meus pés se cansaram da ronda porque quem sabe
    faz e não pede sua atenção, cavalheiros.
    Linha direita.
    Linha esquerda.
    Imagina o trabalho do corpo devolvido adeus feito
    livro com orelhas e digitais de gordura.

    Eu não vou mais dormir.


    - Escrito em 24/7/7, possível apenas com 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10.


PEDRO ACOSTA. | Domingo, Julho 01, 2007


1.6.07


    Detalhe fotográfico de instalação de Ernesto Neto, encontrado na página da galeria Koyanagi

    Trinta e dois

    porque já era manhã e as persianas
    deixadas abertas
    o quarto sujo e os corpos emaranhados
    e do movimento dos corpos
    o sol encarnava na poeira
    porque eu buscava restos de pó entre seus dentes
    porque eu buscava estar entre seus dentes
    e os lençóis costumavam ser brancos mas encardiam

    e os ônibus escorriam por suas costas
    e já era manhã e tudo estava perdido
    porque restos de cal dormiam nos cantos de sua boca
    e olhos e eu tinha rabiscado a febre no verso de fotocópias

    as paredes se doíam em infiltrações.

    porque eu me envergonhava de versos e tentava prender com os dentes
    as palavras que descreveriam seu corpo.
    porque nada tinha de especial em sua saliva ou seu leite em seu suor
    e, no entanto,
    eu não tinha mais nada.

    porque meu corpo cintilava em espasmos de novo
    e meus dentes batiam e não tinha onde prender palavras
    e não havia como não ouvir o trânsito e não havia como pegar um ônibus.

    meu olhar escapava aos cantos do quarto e buscava ir contra o sol
    como sempre me disseram para não fazer
    mas girava débil no ar e caía em seu lugar justo.

    porque eu jamais poderia explicar a alguém ou mostrar fotografia
    a manhã se afundava em mim e se escondia a onde eu não podia mais tomá-la.

PEDRO ACOSTA. | Sexta-feira, Junho 01, 2007


1.5.07



    Vinte e seis

    À noite, à janela,
    entregue à rua,
    à espera de pedestre.
    A rua vazia de gente,
    A janela vazia de vento.
    Cães esparsos pontuam em eco o espaço.
    Longe,
    árvores se encantam curvilíneas
    - seu langor encrostado de segredo -
    a postes.
    Rompem suas lâmpadas.
    Mais longe,
    a prefeitura precisa urgentemente recapear as estrelas.
    O céu vazio de nuvens,
    O asfalto vazio de chuva.
    Terrenos baldios e semi-edifícios
    famintos de esquadrias, esquálidos de cimento,
    lambendo o sabor ainda morno de seus pedreiros.
    Do que se grita, pouco
    transborda as janelas
    e, disso,
    tudo silencia na alvenaria.

PEDRO ACOSTA. | Terça-feira, Maio 01, 2007


1.4.07



    Trinta

    Carrego entre os dentes
    limpos
    a manhã conseguida da fresta
    entre
    porta e portal.
    Lambi a manhã que ouvi.

    Ele disse ela bebia
    toda a manhã que escorria.
    Não sobre as paredes suadas.
    Não na praia dos lençóis.
    Sorvia
    toda a manhã que havia.
    O sol já lhe entrara pelas cortinas
    e aquecia o rosto roseado.

    Ele disse ela disse
    a manhã se punha aquecida sobre.
    Roseada só um pouco.
    Ele disse ela disse
    que o gosto era doce.
    Mais doce que a manhã anterior,
    como da lama da noite brotasse alguma coisa a atrair beija-

    flor.

    Ela disse um braço de mar lhe alcançava a garganta.
    Como a manhã quente rebentasse na garganta.
    E a língua fervilhasse em espuma.
    O alvorar deitava na nuca.

    Eu disse o suor
    escorrido por fórmica.
    Os dentes rangendo como rangendo
    as juntas da porta.
    As faces vermelhas sem sol.
    E eu mordendo a manhã que não tinha.

PEDRO ACOSTA. | Domingo, Abril 01, 2007


1.2.07


    "Arc-Point" (2006), móbile de Timothy Rose, inspirado em Wassily Kandinsky

    Dezenove

    1
    Lindas flores de mofo se insinuam
    sobre o teto,
    refrescam-se e reavivam
    dos vapores de boca-de-lobo.
    Dentes-de-leão, línguas-de-lodo.
    Quando vem a primavera
    do banheiro, quando o musgo
    floresce em esplendor?
    Quantas mais chuveiradas matinais
    até que a língua faça
    __________________rio
    e os mosquitos
    _____________borboletas fractais?

    2
    Ainda amontoados
    uns sobre os outros, seus humores
    emaranhados,
    ainda sob o sebo esbranquiçado
    que os faz
    paredes.
    Todo o ímpeto
    guardado o apartamento ainda vadio,
    todo o sol das tardes silentes,
    destilado agora em tilintar brilhoso.
    Dois ou três por metro quadrado, cintilam
    tijolos em cores sortidas.
    A despeito
    dessa chuva que não vem e agora
    em vívido desrespeito
    ao dia que vai germinar tão
    puro
    quanto
    pesado.

    Fuligem.
    Restos de cal nos cantos da boca.

    3
    Acetinadas línguas serpenteiam
    para fora das gavetas,
    sibilam segredos.
    Implicitam camisetas,
    frases de efeito, iluminações, epifanias.
    Exaltadas, alto no palanque da escrivaninha,
    discurso revolução comunista.
    Desfiar, despir, desfazer.
    Enovelar,
    refazenda, refazer-se
    em bandeira bordada,
    em orgia com cheirinho de amaciante.

    4
    O suor chove no colchão
    torrencial.
    Lento, pulso constante,
    abrasa o lençol
    o dedo em riste.

    Dançam lustres como ventiladores mordem suas gaiolas.

    As paredes tremem.
    Penetra o corpo estranho explora violência o vão do edifício,
    arquejam os pilares do prédio.
    Gritamos:
    voa! voa! voa, elevador!, voa longe!

PEDRO ACOSTA. | Quinta-feira, Fevereiro 01, 2007


1.1.07


    P.A.

    Doze
    Chá pra três


    Oi. Vai entrar?
    Seu chá
    esfria
    sobre o televisor e
    você
    sentado na grama sob a garoa.
    Me ouve?
    Seu chá está esfriando e a tevê chia,
    eu não sei desligar.

    Não, ninguém aqui.
    Chamei e entrei, gritei por alguém, não sei, cheguei
    há pouco.
    Pela porta da cozinha.
    Não, ninguém, só sua xícara.
    E uma outra, ainda cheia,
    o chá quase da cor da madeira,
    sobre o aparador da sala,
    transbordado um pouco, manchando a madeira.
    E outra, terceira, que vi
    esvaziada sobre a pia, na cozinha.

    Tem certeza não chove demais?
    Minha vó tinha medo
    de raio e eu
    tenho medo de raio e o nariz
    já entupido
    só de ver você encharcado.

    Entra logo, eu preciso
    falar alguma coisa rapidamente.
    Não! Me diga você.
    Como conseguiu essa televisão?
    Me diga algo, algo da casa
    ou dos móveis,
    me conte
    da tarde antes de eu entrar.
    Ou, mesmo!, rapaz!, me diga sobre o chá.
    Você sabe, eu entendo
    nada
    do gosto do chá.

PEDRO ACOSTA. | Segunda-feira, Janeiro 01, 2007


1.12.06


    Subindo a mina de Serra Pelada (1986), de Sebastião Salgado

    Onze

    Minhas costas reclamam da cama,
    estão afogadas em colchão, edredom.
    E o calor ameno antes agora mais queimação das assaduras sobre
    uma pele imprópria para sob-sol ou
    mesmo
    ao fluxo inconsciente e massageador dos escapamentos.

    E tudo isso logo
    agora que busco próximo ao rodapé,
    nas arestas do quarto, vestígios
    de vida anterior ou qualquer.
    Fios de cabelo, unhas, pequena
    lama de suor e pó fora do escopo
    de uma camareira indolente.

    Sobrescrevo
    com a língua o perímetro do quarto,
    um sabor nauseante:
    hortelã, pinheiros, alvejante.

    Vou tentar a poeira das ruas.

    Antes que um gari,
    um cuspe laranja da madrugada!
    Sob os vigias que dormem portões.

    Passar a língua pelos cantos da rua,
    a acumulação deselegante de asfalto, barras de concreto indecentes e entregues.
    A dobra quente da cidade.

    Com a língua o períneo da rua,
    um joelho sobre a calçada, um joelho sobre a avenida.
    Engatinho cuidadoso,
    no nariz algum pólen dos cobertores,
    travo de papelão,
    um pouco do leite restante das solas dos sapatos,
    respingado do encontro violento com o pires.

    Tudo feito, quase manhã -
    a língua, enfim, dormente -
    as costas queimam de açoite,
    longos chicotes viris do céu aberto.
    Encolho-me sobre o estrado, tributo singelo aos pedestres, e
    tatuo em mim
    seus relevos.

    Na pele o sebo lembrança febril dos pneus.
    Ondas amarelas de sono
    molham-
    me os pés, a maré sobe rápida em constância.
    Logo, o sinal vai fechar.

PEDRO ACOSTA. | Sexta-feira, Dezembro 01, 2006


1.11.06


    Gustavo Maia

    Seis

    Eu falava pedregulhos;
    ele respirava lâmina.
    Tive medo por não sabê-lo em preciso,
    não conseguir calcular sua espessura,
    por a questão da cor de seus olhos tomar muito da minha atenção.

    Quando havia palavra,
    ela me roçava o ouvido rude,
    resolvendo por outro destino de pronto.

    Eu dizia quaisquer
    e empilhava as frases em grupos de dez.
    Empurrava-os para sob a cama, que subia catorze centímetros por minuto.

    Pensei em dançar-me pra fora do quarto,
    a loucura sempre convence,
    mas meus dedos tinham conquistado senso de realidade aguçado.
    E uma vontade de tambor.

    Marchamos pra fora dali com a elegância possível,
    quepes botas fardas amarfanhadas,
    fomos pela janela do quintal e além,
    até que grama me brotasse na garganta.

PEDRO ACOSTA. | Quarta-feira, Novembro 01, 2006


1.8.06



    Dois

    Bem quis
    cobrir as palavras de branco.
    Os riscos no viaduto ofendem os pedestres.
    Tapei o nariz
    Até não poder trafegar.
    Imaginei um samba;
    imaginei síncope.

    Protestei contra a lâmpada
    de 60 watts,
    o novo tom médio das paredes.

    Uau, uá, uá
    - Uma estrofe sem cimento
    sempre quis

    um programa na televisão

    Bem li
    Os avisos da cartilha.
    Acendi
    O cigarro que carrego na mão.

    Deus! Eu quis
    abrir uma janela abrir uma janela abrir uma janela abrir uma janela abrir uma janela
    já.

PEDRO ACOSTA. | Terça-feira, Agosto 01, 2006


1.8.05



    Mágica

    Eu não tenho ódio no coração.
    Também,
    Que eu tenho?
    Tenho nada a mostrar.
    Minhas mãos limpíssimas, meus
    bolsos vazios.
    Por favor, me desvista
    antes que isso se faça sozinho.

    Há algum tempo,
    pensei
    cheiro de pólvora nos dedos.
    Era uma festa, meu bem?
    Dança e quermesse.
    Quando os fogos se espalhavam pelos
    seus orifícios,
    iluminavam céu da boca.
    Eu, com algum sacrifício,
    escondia da rua,
    à noite,
    a manhã.

    na avenida vazia
    passistas passistas passistas
    e na hora silente
    gente gente gente

    Me vista,
    antes que eu perca o caminho.

    Vejam! Nada nas mãos.
    Nem nesta, nem nesta,
    Nem gesto, nem besta, nem festa.

PEDRO ACOSTA. | Segunda-feira, Agosto 01, 2005


1.7.05


    Portrait with hands, de Evgen Bavcar.

    Fumante passivo

    Tenho medo de não reconhecer meu quarto,
    ter pesadelo hoje à noite quando for me deitar.
    Temo que ele seja muito maior que o necessário
    e limpo demais.

    Depois desse tempo,
    acho que durmo melhor em pé.
    Ou sentado em cadeiras de espera.
    Sobreouvindo conversas de estranhos
    e acompanhando o riso nas piadas.

    Parece que me acostumei à fumaça
    das conversas inúteis sobre futebol
    e as risadas longas à mesa
    após bons copos de cerveja.

    Certamente me acostumei às vitrinas
    e atrás delas fumaça
    e as conversas inúteis sobre futebol.

    Decoro algumas de suas piadas
    e jeitos de segurar cigarro,
    me visto com roupas novas que parecem velhas,
    tenho longas desbocadas discussões comigo mesmo,
    usando um sorriso largo e maneira de segurar o copo que inventei agora.

    Há certas noites que, na verdade, nunca terminam.

PEDRO ACOSTA. | Sexta-feira, Julho 01, 2005